Viciado sem cura
Entre um exame e outro, uma visita e outra, a laboratórios e
médicos, monitorando duas iminentes cirurgias, vou chegando às sete décadas de
vida. Fazendo o que mais gosto. Trabalhando. Lendo, estudando e escrevendo. E,
prazerosamente, sendo jornalista. Uma profissão que não me fez rico. Mas me fez
trabalhador. E tem me possibilitado viver com dignidade.
No próximo sábado, dia 9, completo 70 anos. Meu Deus!
Como o tempo voa! Parece que foi ontem que saí de casa aos treze anos. Não fui
pra casa de parentes nem amigos da família. Fui pro mundo com meu terceiro ano
primário. E a estranha mania de ler tudo que estivesse ao alcance das mãos. Do
primeiro emprego como ajudante em oficina mecânica e o primeiro emprego como
repórter, só se passaram quatro anos. E lá estava eu, contaminado, com a tinta
das redações correndo nas veias. Para sempre.
Nunca mais me libertei dessa paixão. Tentei muitas vezes, em
muitos ofícios. Mas o visgo, como de jaca, me puxava de volta. Quando a sola do
sapato furava e o colarinho da camisa puía, me livrava da gravata desbotada e
me jogava noutra lida. Ganhava dinheiro, viajava, curtia coisas novas. Com o
guarda roupa renovado, voltava compulsivamente, para cheirar a tinta fresca no
papel jornal da manhã. Viciado sem cura. E sem querer ser curado.
Conheci gente e lugares. Vivi experiências ricas de
sabedoria, bebendo em fonte limpa, de sábios intelectuais. E com eles reafirmei
os conselhos de minha mãe, uma indiazinha tapuia, trabalhadora e analfabeta,
que me dizia: filho só leve pra casa o que é seu. É por isso que, aos 70 anos,
após vários cargos de gestão exercidos,
não tenho do que me envergonhar. Nem envergonhar os meus filhos. Deus tem sido
o meu escudo. Por tudo isso quero me alegrar, nesse aniversário, com os que
gostam de mim. Com a minha mulher e meus filhos. Afinal, amor é alegria.
Osmar Silva é jornalista - sr.osmarsilva@gmail.com
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