segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mulheres ribeirinhas assumem tarefas dos maridos nas casas de farinha




Preço da saca de farinha de 60 k alcançou R$ 200,00 na entressafra, mas caiu para R$ 160,00

A mulher ribeirinha deixa cada vez mais os afazeres domésticos para assumir antigas tarefas do homem nas casas de farinha na região do Baixo-Madeiro em Rondônia. No distrito de Calama, a 7 horas de barco de Porto Velho, um grupo de trabalhadoras rurais decidiu sair da cozinha e arregaçar as mangas para ajudar os maridos no fabrico de farinha de mandioca.

O baixo valor das aposentadorias rurais dos maridos contribuiu para a decisão. Cansadas de esperar pela correção dos “benefícios” cerca de um salário mínimo (R$ 724,00) e decididas a contribuir mais para o aumento da renda familiar, ingressaram junto com os maridos na Associação dos Agroextrativistas do Baixo-Madeira (Agrexbam).

Os relatos são sempre parecidos: “Aqui nós fazemos de tudo, plantamos, colhemos, prensamos , torramos e peneiramos”, disse Maria Antônia Cardoso dos Santos, casada com Alzenir Pinto França. Contou ainda ter ajudado a torrar a massa, minutos antes da chegada do repórter à sede da entidade, às 10h30, dia 17 de agosto de 2014.
Maria de Fátima não tem mais dúvidas. É melhor ajudar o marido na “casa de farinha” onde entre uma tarefa e outra dá tempo cozinhar o arroz, feijão e um pedaço de carne seca ou peixe para o almoço, e retornar somente à noite para casa.

Ela é outra agricultora que ajuda o marido em todas as etapas da produção da farinha, desde o plantio das chamadas “manivas”, pequeno pedaço do caule da árvore da mandioca selecionada para plantar no “roçado”, nome dado pelos ribeirinhos às áreas de cultivo de mandioca na várzea ou em terra firme.

No distrito de Calama, a mandioca é plantada e colhida na única área que não foi atingida pela cheia histórica do Rio Madeira, no primeiro trimestre de 2014. Somente o agricultor João Torres de Figueiredo, 63 anos, plantou 150 quadras e começou a desmanchar (processar) com a ajuda da mulher e dos filhos a produção.

As 150 quadras de mandioca, segundo Figueiredo, são suficientes para a produção de 90 sacas de 60 kg de farinha. Cada saca de farinha é vendida a R$ 160,00. “O preço já esteve melhor”, lembra.

Na várzea, o ressecamento do solo proveniente do acúmulo de areia (sedimentos) depositados nas áreas mais baixas das duas margens do rio impede o crescimento das árvores plantadas e resulta no consequente atrofiamento do caule e o apodrecimento da raiz.


De fevereiro a março, período da cheia, o preço do produto alcançou R$ 200,00 com o aumento da procura. Com a vazante do rio, caiu para R$ 160,00 a saca. Para baratear mais os custos eles optaram pela mão de obra familiar e adotam um sistema de revezamento entre os próprios parentes.
A produção de farinha em forma de mutirão familiar é realizada por meio do revezamento.  Um grupo de parentes  inicia a empreita e quando termina vai ajudar os outros integrantes da família. O agricultor disse ainda que, a cooperativa vai ganhar uma aliada, a agroindústria de babaçu que entra em funcionamento no primeiro trimestre de 2015.
A expectativa é de que a agroindústria traga um novo impulso para a comercialização da farinha regional e polpa de frutas como abacaxi, acerola, caju, goiaba, além de açaí e abacaba.

Difícil recomeço


A bordo da embarcação “Caçote”, que realiza duas viagens por semana à região, várias
pessoas atingidas pela cheia retornavam às suas propriedades. Luzia Silva, 45 anos, é uma delas. A agricultora contou que a família está recomeçando a vida. Embora sua propriedade não tenha sido inundada, foi retirada pela Defesa Civil por medida de segurança. Com a ajuda dos filhos, plantou quatro hectares de macaxeira na comunidade de Porto Jacarezinho, Gleba Rio Preto, onde mora.

Distante da sede da Agrexban, Luzia reclama dos baixos preços pagos pelos atravessadores. Propõe ao governo que construa uma casa de apoio na capital, espécie de abrigo onde os ribeirinhos, os verdadeiros produtores possam permanecer até encontrar melhor preço para os produtos e fugir dos intermediários.

No período do pós-enchente, até as mudas para plantar estão escassas. Não há mudas de mandioca na região do Baixo-Madeira e, segundo Luzia, o agricultor é obrigado a usar a espécie “açarana”. A “urana” que produz com 1 ano e também é chamada de “olho roxo” virou uma raridade na região. A “arranha céu”, que leva 2 anos para amadurecer e ficar no ponto para produção de farinha, foi adquirida em outras áreas de cultivo mais distantes.
A falta de mudas não é o único problema nas comunidades ribeirinhas. Onde Luzia mora, o posto de saúde fechou há 5 anos, a única escola está caindo e só tem dois alunos de 4ª série. Quando uma pessoa adoece tem que viajar 3h30 de barco com “motor rabeta” até o posto de saúde mais próximo em Calama. “Muitos já abandonaram suas terras por falta de condições de estudos para seus filhos”, conta a agricultora.



Por Abdoral Cardoso


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